O livro digital e as perspectivas para o Mercado Editorial

13 de Maio de 2015, por

O livro digital, ou eBook, surgiu em 1971, com Michael Hart e o projeto Gutenberg, que tinha como objetivo digitalizar livros e oferecê-los gratuitamente, e nada mais é do que um livro disponível para leitura em aparelhos e mídias digitais. O livro digital surge, então, a partir do momento em que se forjou a possibilidade de transpor o conteúdo dos livros para serem lidos em aparelhos eletrônicos. Os primeiros livros eram lidos diretamente na tela do computador, armazenados em disquetes, CD’s, pendrives ou no próprio HD.

Desde o passo inicial de Hart, muitos acontecimentos foram importantes para a popularização do ebook como o conhecemos hoje, como o surgimento da Amazon, em 1995. Mas foi em 2006 que a Sony lançou um aparelho que mudou nossos conceitos sobre livro eletrônico: o Sony Reader, que trouxe a inovadora tecnologia da tinta eletrônica, que permite a leitura de forma bastante similar à do livro.

No ano seguinte, a Amazon lança o Kindle e, em 2010, a Apple lança o revolucionário iPad. A partir daí, as previsões a cerca do fim do livro começam a ganhar cada vez mais forma, já que a modernização dos equipamentos eletrônicos começa a alcançar níveis surpreendentes de inovação e usabilidade. Mas, por enquanto, apesar do crescimento das vendas de ebooks, principalmente nos Estados Unidos, a coexistência é pacífica, mostrando que ambos os suportes têm seus valores e funções e podem adaptar-se ao novo cenário:

O novo suporte do escrito não significa o fim do livro ou a morte do leitor. O contrário, talvez. Porém, ele impõe uma redistribuição dos papéis na “economia da escrita”, a concorrência (ou a complementaridade) entre diversos suportes dos discursos e uma nova relação, tanto física quanto intelectual e estética, com o mundo dos textos (extraído do livro Os Desafios da Escrita, de Roger Chartier).

Para muitos, o livro é o suporte perfeito, impossível de ser aprimorado, com características tão distintas que o colocam em um patamar inalcançável . Talvez seja, mas para o que ele propõe. O livro digital não deve ser entendido como um substituto para o livro, mas sim como uma nova plataforma de leitura, independente do livro.

As variações em torno do objeto livro não modificaram sua função, nem sua sintaxe, em mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorado.

Com a afirmativa acima, Umberto Eco faz uma ampla e apaixonada defesa do livro de papel em seu livro, escrito em parceria com Jean-Claude Carrière, Não contem com o fim do livro. Mas será o livro (tratemos o livro de papel apenas como “livro”) uma ferramenta tão perfeita assim, que desbanca inovações e pode se dar ao luxo de “não ser aprimorado”? Será também que o livro digital representa ameaça ao “futuro do livro”? Antes de tudo, é preciso ressaltar que mudanças sempre ocorreram e são a base evolutiva da nossa sociedade. Apedrejar o livro digital e dar o livro como morto são temas constantes nesse diálogo. É preciso, entretanto, lembrar que, principalmente na comunicação, tecnologias anteriores também surgiram e foram cunhadas como “aniquiladoras” de suas predecessoras. E essa questão não é recente. Vem de longe essa discussão, e reverberou em debates como televisão versus rádio, fotografia versus pintura, cinema versus teatro, escrita versus memória.

Em diálogo de Fedro, Sócrates apresenta o mito de Thoth, o deus egípcio inventor do número, do cálculo, da geometria, astronomia, do jogo de damas, dos dados, e também da escrita:

Dizem que Tamuz fez a Thoth diversas exposições sobre cada arte, condenações ou louvores cuja menção seria por demais extensa. Quando chagaram à escrita, disse Thoth: “Esta arte, caro rei, tornará os egípcios mais sábios e lhes fortalecerá a memória; portanto, com a sabedoria”. Responde Tamuz: “Grande artista Thoth! Não é a mesma coisa inventar uma arte e julgar da utilidade ou prejuízo que advirá aos que a exercerem. Tu, como pai da escrita, esperas dela com teu entusiasmo precisamente o contrário do que ela pode fazer. Tal coisa tornará os homens esquecidos, pois deixarão de cultivar a memória; confiando apenas nos livros escritos, só se lembrarão de um assunto exteriormente e por meio de sinais, e não em si mesmos. Logo, tu não inventaste um auxiliar para a memória, mas apenas para a recordação. Transmites aos teus alunos uma aparência de sabedoria, e não a verdade, pois eles recebem muitas informações sem instrução e se consideram homens de grande saber, embora sejam ignorantes na maior parte dos assuntos. Em consequência serão desagradáveis companheiros, tornar-se-ão sábios imaginários ao invés de verdadeiros sábios”.

As novas tecnologias sempre tiveram papel ameaçador frente às tecnologias videntes. A repulsa de Tamuz em relação à escrita reflete seu medo em relação à substituição da tecnologia da época (a oralidade). Perder-se-ia, com o advento da escrita, a capacidade do homem de cultivar a memória, já que este teria como deixar tudo registrado. O que vemos hoje é o inverso, já que a escrita fez com que uma gama maior de informações sobre o mundo pudesse ser organizada, aumentando assim nosso conhecimento. Mas é curiosa tal reação, já que podemos perceber o mesmo discurso nos dias de hoje em relação à internet.

De acordo com McLuhan “ambientes tecnológicos não são recipientes puramente passivos de pessoas, mas ativos processos que remodelam pessoas e igualmente outras tecnologias”. As tecnologias não se extinguem, complementam-se. A internet e as novas tecnologias não deram fim às tecnologias tradicionais, mas certamente fazem com que estas tenham que reconfigurar suas práticas, sem a substituição de seus respectivos antecedentes.

O fato é que as duas tecnologias estão disponíveis e têm suas funções. Cada uma a seu modo, encontrarão suas funções, usuários, propósitos. Mas, em vista de tais mudanças, um questionamento fica cada vez mais evidente: como o mercado editorial assimilará essas mudanças?

As mudanças e as possibilidades que o livro eletrônico trazem ao mercado editorial são promissoras. Alguns sites brasileiros já apostam numa plataforma de divulgação de livros (eletrônicos e impressos sob demanda) de autores independentes, mas os processos ainda caminham muito separadamente. Enquanto as livrarias brasileiras rejeitam colocar em suas “estantes virtuais” livros de editoras sem expressão, a Amazon coloca lado a lado John Grisham, autor best-seller mundial de romances jurídicos e o desconhecido – na época em que o autor publicou seu livro no site – Willian P. Young. O livro em questão, lançado de forma independente e hoje com direitos cedidos à diferentes editoras ao redor do mundo, já vendeu mais de 12 milhões de exemplares, e chama-se “A Cabana”.

O livro digital já é uma realidade e tende a trazer modificações significativas para a indústria editorial. É época de valorização de autores – a fim de afastá-los da tentação da publicação independente –, de aposta nos mercados de nicho, de entendimento das novas tecnologias e, acima de tudo, de adaptação às novas possibilidades. É certo que novas regras surgirão, mas estas não anulam as antigas. A própria Cauda Longa é uma teoria que funciona magnificamente bem com artigos puramente digitais, como o livro eletrônico, mas também pode ser utilizada na venda de livros de papel. A questão é como as editoras reagirão frente às mudanças.

É válido lembrar que a forma nem sempre é o mais importante. Como disse Epstein, “muito antes de os livros existirem como objetos físicos, os contadores de histórias transmitiam dados essenciais às sucessivas gerações em forma de narrativa (…)”. O livro é sim uma ferramenta que revolucionou a forma de se compartilhar conteúdo, mas não é a única. O livro eletrônico certamente também não o será. Apesar das qualidades e facilidades que este traz, a tendência é que haja um reajuste nas funções do livro e um encaixe no propósito do livro eletrônico.

Certamente haverá redução das tiragens médias dos livros, indo de encontro às novas formas de impressão sob demanda, mas somente o futuro dirá quanto caberá às partes:

As tecnologias sucessivas da linguagem, da escrita e dos tipos móveis colocaram ferramentas cada vez mais poderosas nas mãos dos contadores de histórias, ferramentas cujos usos eram inimagináveis quando essas tecnologias foram criadas. Ficará a cargo dos nossos filhos e de seus filhos o aprendizado do significado das tecnologias que hoje despontam no horizonte. A produção de livros como eu conheci já está obsoleta, mas a definidora arte humana de contar histórias sobreviverá à evolução das culturas e de suas instituições como sempre o fez. As novas tecnologias modificam o mundo mas não apagam o passado nem alteram o genoma (extraído do livro O Negócio do Livro, de Jason Epstein).

A nova configuração do mercado editorial não aniquila o livro de papel, apenas reorganiza seu espaço. Como disse Zilberman no livro Fim do livro, fim dos leitores? as “mudanças determinam não apenas rupturas, mas também continuidades, desde que adaptações ocorram”. Sendo assim, a tendência é que, como ocorrido em todos os grandes avanços tecnológicos, que ambas as tecnologias sobrevivam. O livro eletrônico não impõe fim ao livro de papel e, por consequência, este não deixa de representar seu papel.

As novas tecnologias abrem sim um novo e amplo mercado para a indústria editorial, mas esta não precisará abrir mão dos produtos e meios usados hoje. Apenas precisará aprender a conciliar as duas práticas, aproveitando o que de melhor cada uma oferece. Assim como Epstein, “favoreço o Deus Jano, que olha para trás e para frente ao mesmo tempo. Sem um elo vivo com o passado, o presente é um caos, e o futuro, ilegível”.

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