Conquistadores

25 de Setembro de 2018, por

Resumo

Título:

Conquistadores (Conquerors)

Autor:

Roger Crowley

Editora:

🇵🇹 Editorial Presença   🇧🇷 Crítica

Páginas:

392

Publicação:

2016

ISBN:

9789722357760

Preço:

🇵🇹 18,50€   🇧🇷 R$ 72,90

Avaliação:

Uma obra que recupera o papel de Portugal como pioneiro do primeiro império global. — Daily Telegraph

No começo deste ano, acompanhado da minha esposa, fiz minha primeira viagem a Portugal. Sonhava, mas não imaginava, que estaria a morar aqui hoje. Mas cá estou e, não por acaso, resolvi resenhar um livro adquirido nesta viagem e que fala da história das navegações portuguesas. Visitei o imponente Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, monumento símbolo do passado glorioso que o país teve na época das grandes navegações, e fiquei absolutamente encantado com a Rosa-dos-Ventos que adorna o espaço, exibindo as datas em que os portugueses chegaram a cada canto do globo.

Mas confesso que, apesar de conhecer o passado navegador português, os nomes que me vem logo à cabeça quando penso nos descobrimentos são os de Pedro Álvares Cabral (certamente pelo fato de eu ser brasileiro), Cristóvão Colombo (me desculpem os portugueses, mas é um nome forte que me vem à cabeça), e Vasco da Gama, por ter sido o primeiro a chegar às Índias. E o que Roger Crowley me mostrou no seu ótimo Conquistadores – Como Portugal Criou o Primeiro Império Global é que os pormenores dessa história são riquíssimos, e que há muito mais personagens interessantes.

Conquistadores traz à tona uma visão romanceada dos acontecimentos, o que torna a leitura extremamente fluida. A história é escancarada e nos mostra como é possível a um pequeno grupo de homens, se organizados, realizar feitos incríveis e alcançar grandes riquezas. Não sem muita luta, é claro. Crowley não obscurece os fatos, mostra o espírito guerreiro dos fidalgos portugueses, enaltece a bravura e a curiosidade portuguesas, e conta, sem nenhum filtro, diversas das batalhas mais sangrentas que por lá tiveram lugar.

O Sol foi obscurecido, “o fumo e o fogo eram tão espessos que não se via nada”. As crônicas narram o fim do mundo.

Desde a década de 1420 os portugueses começaram a explorar o Atlântico e a costa da África por motivos políticos, comerciais e religiosos. Henrique, O Navegador, principal patrocinador desta aventura, aproveitou novas técnicas de navegação e construção naval para estender a influência portuguesa para o sul. O objetivo era mapear sistematicamente a costa africana e as ilhas no Atlântico para procurar uma rota marítima para a Ásia e quebrar o monopólio muçulmano-veneziano do comércio com a Índia, enriquecendo assim Portugal e, de quebra, destruindo o poder muçulmano.

Mas o principal objetivo de Crowley é desbravar os acontecimentos posteriores à chegada de Vasco da Gama às Índias (e já com D. Manuel I no trono) e esclarecer como os portugueses foram capazes de interromper o funcionamento de um comércio marítimo que funcionava como um relógio suíço e estabelecer uma força imperial capaz de “encurtar” as fronteiras do mundo, tornando-se assim o primeiro império global.

Com base em extensos relatos, Conquistadores, traz à vida as façanhas de um extraordinário grupo de homens, como o aparentemente indestrutível Afonso de Albuquerque, o protagonista da história de Crowley, e a quem chama de “um dos grandes conquistadores e construtores visionários do império da história mundial”. Dono de uma inteligência e força de vontade ímpares, Albuquerque percebeu que Portugal podia controlar o comércio de seda e especiarias ocupando alguns pontos estratégicos como Goa, Malaca e Ormuz, o que pôs em marcha quinhentos anos de colonização europeia e desencadeou as forças da globalização.

Albuquerque foi o primeiro europeu desde Alexandre, o Grande a estabelecer uma presença imperial na Ásia. Com a sua barba branca e comprida e o seu aspecto ameaçador, era visto no Oceano Índico com uma reverência supersticiosa.

Albuquerque governou na Índia de 1509 até sua morte, em 1515. Feroz em muitos momentos e um exímio estrategista, ele foi um sobrevivente e um inovador. Como possuíam apenas alguns milhares de homens, com baixas que só se repunham de ano em ano, os portugueses nunca conseguiram manter vastas faixas de território. Em vez disso, “eles desenvolveram como um mantra o conceito de poder marítimo flexível ligado à ocupação de fortes costeiros defensáveis ​​e uma rede de bases”. Foi Albuquerque quem modelou e aperfeiçoou esses planos para atender às necessidades de uma operação tão remota.

O sucesso da empreitada transformou Lisboa numa cidade extremamente movimentada e rica, quando os portugueses trouxeram de volta tesouros como seda e marfim. O cheiro de cravo, canela e noz-moscada flutuava no ar. Construções impressionantes foram erigidas, como o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, mostras do pensamento messiânico de um monarca que foi capaz de dar nome a um novo estilo arquitetónico, o manuelino. D. Manuel I nunca veria o mundo cuja conquista exigia, mas revelou um conhecimento impressionante dos pontos de controlo estratégicos do oceano Índico e uma visão geoestratégica informada de como os tomar e de como construir o seu próprio império.

Os portugueses, com seus canhões de bronze e frotas capazes, rasgaram um sistema autossuficiente e uniram o mundo. Foram os mensageiros da globalização e da idade científica dos descobrimentos. Os seus exploradores, missionários, mercadores e soldados espalharam-se pelo mundo.

Conquistadores é um ótimo livro e traz muitos esclarecimentos sobre como as conquistas foram importantes para a construção do nosso mundo globalizado contemporâneo e, claro, sobre as navegações portuguesas. Conta para esta avaliação, sem dúvida, a habilidade de Crowley como escritor para trazer esta história de forma agradável e fácil de ler. É um livro de história que irá facilmente agradar até aqueles que não gostam de livros de história.

Que o mar com fim será grego ou romano.
O mar sem fim é português.
— Fernando Pessoa

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